quinta-feira, 22 de maio de 2008

Rumo

Via-o partir, levado pelo metro, e ficava para trás com ânsia de mais. Era tudo tão rápido, mas tão profundo.
Depois ia embora, num vaguear apressado, trauteando musiquinhas com ritmos duvidosos (isto do Amor começara a torná-la pirosa, indo contra tudo o que pensava de si) e apercebia-se que percebera porque razão ele não gosta de chocolate.
Ao mergulhar naquele brilhozinho nos olhos via de que estes eram feitos; e deduziu, como se contasse um história, que ele já não precisava de mais, afinal já tinha a dose certa. E o sorriso... quando lhe sorria com ar de parvo dava vontade de lhe arrancar um pedaço de barba e levá-la para casa.
Eram aqueles minutos, por mais pequenos que fossem, que lhe faziam imaginar viagens sem rumo ("rumorumorumo") de mochila às costas, aldrabões destemidos e conversas com colheradas de gelado de caramelo com caramelo. Sonhos embalados por um gorro verde.

sábado, 3 de maio de 2008

Como nos romances a sério

O olhar dela voltara a brilhar como antigamente. Voltou a ter aquela estrelinha que tinha antes de partir para um lugar distante, que ela chegou mesmo a amar, onde se perdeu por infímas luzes.
Agora que vivia um dia de cada vez, saboreando o Sol e o Mar em fortes tragos, a sua pele escurecia levemente e tinha um novo cheiro a côco (como o dos biscoitos) que se acentuava nos dias de amuo quando ela se deitava na cama de maçãs.
Ele olhava-a assim, feliz, por entre as árvores, todas as manhãs, enquanto o vento tilintava o espanta-espíritos. Depois sentava-se na soleira da porta (ela rangia como as dos castelos das princesas), puxava do pensativo cigarro e em cada fio de fumo que lançava para dançar no ar via as carícias que lhe fazia com as pontas dos dedos enquanto esperava, sem pressas, que ela adormecesse nos seus braços, tal como haviam sonhado em outras quimeras. Recordou a noite que nenhum conseguia esquecer; repleta de risos, atrasos e bebidas («feérica!» - dizia ela), em que a tinha visto como uma fada envolvida em tanta música.
Era manhã de bons ventos, ela apareceu entre as cortinas de linho branco, quase sem se notar, com duas canecas coloridas nas mãos; trazendo, por carolice, a candura e a pureza no seu vestido fresco e um sorriso de «Bom dia!» nos lábios de ouro.
Quando a viu chegar, levantou-se, apagou rapidamente o cigarro e procurou os sapatos vermelho brilhante, mas só a encontrou descalça com ar de quem pergunta «Porque é que estás a olhar assim para mim?»
-Já estavas aí há muito tempo?
-Não, estava aqui a ver-te fumar, tinha curiosidade... Café?
Estendeu desastradamente a mão pequena ornamentada pelas pulseiras da sorte tentando não entornar nada.
-Sim, obrigado. Não estás a beber café, ou estás?
-Não - sorriu- nesta caneca só pára leitinho.
-O que foi?
-Quero olhar para nós.
-Como?
-Nos teus olhos.
-Porquê?
-Porque somos felizes.
Abraçou-a como se quisesse guardá-la nos seus braços, bem juntinha ao coração e deu-lhe um beijo na testa, daqueles que só ele sabe dar. Um ar, uma brisa, quem sabe, com todas as cores, intensidades e sentidos corria entre eles e, rebelde, brincava com os cabelos dela, como nos romances a sério.
-Sentiste?
Era o Amor que passava por eles, sem saber o que isso era.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Upa, Neguinho


Porque me lembra uma noite feérica. Repleta de sons, emoções, impulsos, cerveja e uma ida dispensável à Ribeira.

(eu e o Ti já não paramos de a cantar)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Dia Mundial do TEATRO

"Dás-me amor, calor, emoção, adrenalina e uma alegria imensa.
Não amo nada como te amo,
Não dependo de nada como dependo de ti
e dedico-te a minha vida...
TEATRO!"


Feliz DIA MUNDIAL DO TEATRO!! : D
(se eu não fizesse um post destes, quem mais o faria?)

domingo, 23 de março de 2008

Auto-Conversa Domingueira

-Ai, fiquei enjoada. Aquele chocolate era doce demais. Não me admira que elas tenham diabetes!
-Pudera! Acabaste de beber água por cima do chocolate. Fazes cada mistura! Ainda ontem, quase que ias sendo apanhada a comer batatas fritas de pacote por cima do leite. Eram 2 da manhã!
-Oh cala-te! É mesmo bom.
-Tu muito gostas de me mandar calar. Olha lá, o que é que estás a fazer de pijama a estas horas?
-Estou a ressacar.
-A ressacar com um dia tão bonito lá fora? E com o Sol que está?
-É o que se faz a um domingo à tarde, lê-se «Os Maias» deitada na cama desfeita enquanto se pensa no que se vai comer a seguir.
-Assim ficas potinha. Porque é que não foste passear com os teus amigos?
-Vou amanhã.
-Uh... Tens uma caneta nova, toda cor-de-rosinha e tal. Voltamos aos tempos da 'Pink Botton', foi?
-Foi o meu pai que ma deu.
-Ai, estás tão seca hoje! Nem parece teu.
-É que nem te respondo...
-O que é que estás para aí a escrevinhar?
-Anda cá ver.
(Espreita por detrás das costas o caderno desfolhado)
-Ai, não me acredito! Tu estás a escrever as conversas que tens contigo própria!
-Então tu não és o meu «grilo falante»? Como é que eles chamam?... Ah! Já sei! Consciência?
-Estás degradante, sabias?

segunda-feira, 17 de março de 2008

O Lugar




"Já é noite
E o frio está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe que por dentro há vazio
porque em todos há um espaço que por medo não se deu
onde a ilusão se esquece do que o medo não previu.

Já é noite
e o chão é mais terra para nascer
A água vai escorrendo entre as mãos a percorrer
todo o espaço entre a sombra entre o espaço que restou
para refazer a vida que o medo não matou.

Mas onde tudo morre tudo pode renascer

em ti vejo o tempo que passou
vejo o sangue que correu
vejo a força que me deu quando tudo parou em ti
Na tempestade que não há em ti
arrastei-me para o teu lugar
e é em ti que vou ficar.

Já é dia e a sombra está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe o que a luz pode fazer
porque a noite foi tão fria que não soube acordar
porque a noite foi tão dura e difícil de sara.

mas onde tudo morre tudo pode renascer

Mas eu descobri a casa onde posso adormecer
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
Aqui tudo é mais forte e há mais cor no céu maior
Aqui tudo é tão novo porque pode ser amor...

E onde tudo morre tudo volta a nascer

já é dia e a luz está em tudo o que se vê
Cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover
...na cidade que há em ti encontrei o meu lugar
e é em ti que vou ficar. "
Tiago Bettencourt