domingo, 23 de setembro de 2007

Canção Simples

«Quero ver as cores que tu vês,
para saber a dança que tu és.
Quero ser o vento que te faz.
Quero ser o espaço onde estás.

Fazes muito mais que o Sol. »



porque não consigo deixar de a cantar.

sábado, 1 de setembro de 2007

'Como nascem as canções

Sou feita de palavras, tu de notas músicas.
Misturo as letras com os acordes e as frases com os sons.
A minha boca de travessão sorri e os olhos de ponto final abrem ainda mais quando te vejo a chegar, lá de longe.
As minhas mãos de 'A' afastam os teus cabelos em 'ré' para ver melhor sos olhos de solos, e lês o que está escrito dentro do meu coração de frases (diz ser feliz).
da tua suposta voz, saem acordes de guitarra e o travessão, espantado, soltou um ponto de exclamação.

(É assim que nascem as canções).

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Se te chamas Sofia, gostas da Rita...
Se te chamas Sofia, gostas da Rita...
Se te chamas Sofia e tens muita alegria,
Se te chamas Sofia, gostas da Rita!


por Riita [http://riita.deviantart.com]

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sou feita de palavras

Sou feita de palavras, não de desenhos.
Sou feita de letras, de frases, de parágrafos, de pontuações.
À minha cara em 'O' juntaram-se dois olhos de pontos finais. O meu nariz, espantado, tornou-se em ponto de exclamação, fazendo a boca-travessão rir às gargalhadas. O cabelo feito de emaranhado das letras do alfabeto, tão longo como todas as palavras do dicionário e dentro do coração lia-se "SER FELIZ!" - com ponto de exclamação e tudo! Coloquei os brincos em forma de vírgulas e pus um ponto de interrogação no umbigo.
Estava na hora de olhar para o meu próprio umbigo e descobrir de que sou feita.
Já sabia que era feita de palavras, até à altura em que me disseram que afinal era feita de desenhos. Mentiam. Os únicos desenhos são feitos pelo meu lápis da imaginação. São meticulosos desenhos de letras feitos na minha cabeça. Nada mais.
Sou feita de palavras, não de desenhos.


Deixei ficar o ponto de interrogação no umbigo (mas só porque fica bem).
Peguei noutro ponto de interrogação, juntei-o a um acento cincunflexo e fiz um guarda-chuva. Já podia enfrentar a chuva de i's que ia lá fora.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Os Mundos Separados que Partilhamos

"Eu quero voar. Quero fechar os olhos, abrir os braços e voar, subir e subir e subir, atravessar nuvens e sentir a sua humidade na ponta da língua, trespassar o azul do céu com o azul dos meus olhos, e continuar, sempre, por aí acima. Quero sentar-me na lua e sentir o cheiro das estrelas. Quero ser engolida por um buraco negro, ser perseguida por uma estrela cadente. Quero espreitar o interior dos satélites, dançar nas suas asas.

E depois, regressar. Conhecer os mares, nadá-los, aprender os seus fundos. Perseguir peixes, ser engolida por uma baleia e adormecer no seu estômago. Descobrir grutas subterrâneas, desenterrar tesouros fabulosos. Ou simplesmente: respirar dentro de água.

Quero deitar-me na erva fofa de uma campo verde e fechar os olhos, ouvir o sopro do vento acariciar as árvores; ser engolida pela escuridão, respirar devagarinho, saborear a paz; e sentir que o tempo vai parando: como se o mundo esperasse por mim. Percebes isto? Sentir que o mundo espera por mim. Sentir que sou tão importante para o mundo que ele espera por mim.E depois, agradecer-lhe: devorando-o. Sei lá: subir árvores, andar de bicicleta, roubar nêsperas e atirar os caroços a quem calhar, colher flores, aprender a linguagem secreta dos gatos, fazer pão e comê-lo com manteiga, rasgar os livros de que não gosto, tocar violino no cimo de uma montanha, fazer aviões de papel e atirá-los do alto de um farol, colher caracóis nas bermas das estradas e depois libertá-los nos pomares, brincar com bonecas, abordar pessoas desconhecidas e adivinhar-lhes os nomes, caminhar pelos passeios e sorrir a quem passa.

Quero percorrer o mundo, cada centímetro do mundo, e apropriar-me dele, fazê-lo meu. Quero devorar vida, engolir felicidade; e depois, devolvê-la, através dos olhos, a quem amo, a quem um dia odiei. Quero beber a beleza do mundo e dos homens, embriagar-me de beleza, ser beleza. Destilar beleza. E depois, morrer: saciada. Deitar-me novamente na erva fofa do mesmo campo verde e fechar os olhos, ouvir o sopro do vento acariciar as árvores; ser engolida pela escuridão, respirar devagarinho, saborear a paz; e sentir que o tempo vai parando, parou: para sempre.

Quero tão pouco, afinal. Não achas?"

(Paulo Kellerman, "Os Mundos Separados que Partilhamos")

domingo, 17 de junho de 2007

Chuva


-Está a chover.
-Eu odeio a chuva.
-Porquê?!
-Lembras-te do dia em que nascemos?
Era Junho. Apesar do calor que se sentia, a chuva caía em pequenas gotas pousando rispidamente no chão. O Sol já se tinha posto, a Lua girava e saltitava de um lado para o outro e as nuvens acabavam de tapar as nítidas estrelas, aborrecendo dois gatos que tentavam adormecer numa varanda.
Ela estava sentada no jardim, num silêncio absoluto, sozinha, olhando para o céu com tal expressão como se tentasse decifrar os sons do vento.
Ele vinha caminhando com as mãos nos bolsos pelos trilhos amarelos, concentrando-se em cada pequeno passo sem rumo que dava.
O piar de um mocho distraíu-o e fez com que olhasse instintivamente para a frente. Viu-a e aproximou-se.
À medida que avançava só o partir das folhas era audível.
-O que é que estás a fazer?
-Shiu!... Estás a ver aquele ponto brilhante lá em cima?
-Sim, é uma estrela.
-Não não é. É um planeta.
-E daí?!
-Shiu! Deixa-me ouvir o que é que aquele ponto brilhante que dizes que é uma estrela está a dizer - e pôs a mão em concha atrás da orelha tentando ouvir melhor.
Ficaram os dois a olhar para o tal ponto brilhante no céu.
...
-Afinal o que é que aquela estrela ou lá o que era te disse?
-Disse que naquela noite de chuva iria conhecer um homem que iria nascer comigo e mudar o meu destino, mas que numa outra noite de chuva iria perdê-lo para sempre.

Não muito longe dali, um grupo de amigos tentava adormecer, contando piadas uns aos outros.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Merda

Nem a loucura do amor, da maconha, do pó, do tabaco e do álcool
Vale a loucura do ator quando abre-se em flor sobre as luzes no palco
Bastidores, camarins, coxias e cortinas
São outras tantas pupilas, pálpebras e retinas
Nem uma doce oração, nem sermão, nem comício à direita ou à esquerda
Fala mais ao coração do que a voz de um colega que sussurra "merda"
Noite de estréia, tensão, medo, deslumbramento, feitiço e magia
Tudo é uma grande explosão mas parece que não quando é o segundo dia
Já se disse não foi uma vez, nem três, nem quatro
Não há gente como a gente, gente de teatro
Gente que sabe fazer a beleza vencer pra além se toda perda
Gente que pôde inverter para sempre o sentido da palavra "merda"
Merda! Merda pra você!
Desejo merda
Merda pra você também
Diga merda e tudo bem
Merda toda noite e sempre a merda


Caetano Veloso