domingo, 4 de dezembro de 2011
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Pó de estrelas ou Azul, anil e Carmesim
- E como é isso?
- Então, por exemplo, as estrelas que tu mais vês são feitas de pó de estrelas e de leite. Por isso é que têm aquela cor amarela cremosa.
- Parecem feitas de leite creme…
- Pois é! Nunca tinha pensado nisso! A mim faziam-me lembrar queijo derretido.
- Mas a lua é que é feita de queijo. As estrelas não, não é?
- Exacto! Queres mais? Quando misturas pó de estrelas e água nascem estrelas brilhantes. E as cadentes? Sabes como são feitas as estrelas cadentes?
- Tu sabes?!
- Sim. Pó de estrelas e 7up. Metes o pó dentro da garrafa de 7up e as estrelas cadentes saem de lá disparadas!
- …
- Queres que te conte um segredo?
- Sim!
- Mas prometes guardar segredo?
- Sim, claro que sim!
- Há umas estrelas raras feitas de pó de estrelas e groselha que ficam carmesim e só os apaixonados as podem ver!
- Oh!... Azul, anil e carmesim…
- Diz?
- Azul, anil e carmesim…
- O que tem?
- Lembrei-me de uma história.
- Oh conta! Que história?
- Não sei.
- Não sabes? Então lembras-te de uma história e depois já não sabes?
- Não, não sei. Lembrei-me de uma história que está a nascer na minha cabeça.
- Que giro! E como é que é?
- Não sei… Se calhar vai ter três personagens: Azul, Anil e Carmesim.
- Vais ter personagens que são cores?
- Pois, não sei. Mas são tão fortes e tão bonitas…
- As cores?
- Também… e a sua forma e o seu som… Não sei…
- Tu não sabes nada… Sabes o que é isso? É de pensares demais. Pensa menos e sente mais! Vamos buscar pó de estrelas para brincar?
- Sim! E podemos experimentar com coca-cola?
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
- Bem, isso é um sonho de ficar de barriga cheia. E não sonhaste com pipocas coloridas salpicadas na cama?
- Não, mas sabes o que é que eu acho? Como há máquinas de fazer pipocas, havia de haver máquinas de fazer tempo. Saía tempo aos bocadinhos de dentro de uma panela.
- Vinte minutinhos agora, meia horita depois...
- Sim! Assim o meu tic tic deixava de estar cá dentro a fazer toc toc estou aqui! sou a saudade! E a memória não recomeçava - o guarda saudades da cabeça.
- Porque é que o leite encolhe no microondas?
- Aha?
- Porque é que quando aqueço o leite no microondas ele encolhe?
- Porque é que estamos sempre a falar de comida?
- São necessidades homeostáticas. Por exemplo, quando não estás como gelatina de morango. É como se te desse beijinhos depois de comeres gomas.
- Ah, está bem.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Cereja mal comida
Era meia-noite e meia e ela ainda comia cerejas.
Lá do alto, viu uma coisificação de mangas de capote que a deixou perturbada: um homem feito de massa com cabeça de carne picada e olhos de cereja mal comida encarrapitados na sua fronte. Tudo bem que já tinha visto homens batata frita - homens batata frita douradinha e estaladiça – mas nessa altura vivia uma dissonância cognitiva que elevava o seu status quo: seriam os psicólogos gente séria? Os psicólogos são uns mentirosos. Sim, sim, eles mentem às pessoas, dizem que vão fazer experiências com elas e depois, pimbas, fazem outras. Não, não, não é esse pimbas. Esse pimbas tem sabor e sabedoria. Eu saibo a caramelo, tu sabes a café. Eu sei a caramelo, tu sabes a café. (Tu sabes e eu sabia?)
Eis então que, deitadinho no seu divã freudiano (e não froidiano), a antropomorfização de macarrão grita cá para cima: E se eu te disse que um elefante e um rato são uma única e mesma pessoa? Da mesma maneira que um pintainho acaba sendo, afinal de contas, uma goma gigante de peluche?
Eram sete e meia da manhã e ela já não comia cerejas.
sábado, 28 de março de 2009
quando eu morrer
meu amor vais ver
vai ser tão calmo
vai ser lindo de morrer
e à minha volta tudo vai ter luz
essa que é meu desejo ter
e como um truque de uma insólita magia
trazendo o nosso amor de volta à luz do dia
quando eu morrer
meu amor eu fico vivo nos teus gestos e em teu riso
por isso nunca deixes de sorrir
pois para o nosso amor viver é só o que é preciso
domingo, 25 de janeiro de 2009
A Loja dos Risos
-Ora muito bom dia! Em que lhe posso ser útil?
-Bom dia. Olhe, queria um riso novo, é que toda a gente goza com o meu.
-E tem alguma coisa em mente?
-Hum... queria qualquer coisa diferente...
-E que tal um riso nº3?
-Qual? O 'se-se-se'?
-Sim sim, o sibilante.
-Não me parece. Um amigo meu tem um desses.
-Então e o nº20? É o do 'cá-cá-cá'.
-Esse é parecido com o nº18, que eu já tenho, está lá no meio da minha caixinha, misturado com os outros.
-Já sei! Tenho aqui um perfeito para si, chegou esta semana, é o nº28. Completamente inovador!
-Ai sim? E como é que é?
-Isso tem de ser a menina a descobrir...
-E se não gostar? Posso trocar?
-Pode, não se preocupe. Leva aqui o talãozinho e se houver algum problema passe por cá.
-Quanto é?
É claro que não se diz o preço de uma gargalhada.
sábado, 3 de janeiro de 2009
A História do Sr. Elefante e da sua bonequinha
Então, esse "era uma vez" começa com uma bonequinha em terras de Dom Bigode, seu progenitor e excessivo protector, que a guardava em qual redoma de vidro, numa torre sineira no alto do seu castelo muito pouco encantado.
Todos as alvoradas, a boneca de narizinho arrebitado e olhos cor-de-burro-quando-foge lá engendrava mirabolantes planos, escondidos em tranquilos e inocentes passeios, em busca de descobrir novas e diferentes ruas, gentes malucas e admiráveis. E quando encontrou um tal Sr. Elefante, de barriguinha ronceirona, cabelo de mémé e sorriso do tamanho do mundo, dois pequeninos mas enormes corações rabiscados a vermelho despontaram nos olhos daquele rostinho de selene desenho animado.
Ele ensinou-lhe que afinal as borboletas não têm um pózinho mágico que as faz voar e ela riu-se (toda a gente sabe que as ex-lagartas, quando saem do seu casulo, ficam com uns perlimpimpins nas asas e é por isso que andam por aí). A querer retribuir, e a tentar dar bons conselhos, a bonequinha explicou-lhe porque é que não deveria engolir as chiclets. Mesmo assim, o Sr. Elefante não acreditou. Paciência.
Sabem o que é que aprenderam os dois? Que quando se dão beijinhos de olhos fechados, aparecem estrelas que escapam de dentro deles. E que os beijinhos à fada são realmente feéricos porque, além de serem pequeninos mas em repetitivas doses, contribuem para um pleno bem-estar tanto a nível físico como psicológico. O que, nas palavrinhas de pessoas como eu, quer dizer: São bons e fazem bem!
Depois de aprenderem, ensinarem e, acima de tudo, descobrirem, o Sr. Elefante disse à sua bonequinha que um dia a libertaria das barbas (ou melhor, do bigode) de Dom Bigode e ficariam juntos para sempre. Esse dia chegou, quer dizer, essa noite. Era uma noite bem fria (coitadinhas das estrelas, nem lhes arranjaram um casaquinho de lã para se agasalharem), mas de voz quentinha e guitarra de papel na mão, lá apareceu à nobilíssima janela da sua donzela amada, um ilustre elefante de infanção, mais do que preparado para lhe cantar as Janeiras (sim, os elefantes também cantam, não sabiam?). Ela ouviu-o atentamente, tão contente como se tivesse herdado uma loja de doces, repleta de bombons, rebuçados, chupa-chupas e gomas de todos os tamanhos e feitios. E, pé ante pé (será, talvez, mais correcto dizer-se 'pézinho ante pézinho', afinal a bonequinha é pequenina, já por isso é bonequinha), desceu as escadas do castelo, em silêncio, para ninguém ouvir, e foi abraçar o Sr. de tromba grande.
Então, o Sr. Elefante pegou na boneca-pintainho, pô-la debaixo do braço e prometeu tomar conta dela com muito cuidado e carinho. E assim foram viajar por esse mundo fora, procurando e encontrando os lugares que desde sempre quiseram visitar; sem ninguém a impedi-los do que quer que fosse.
E agora? Agora continuam a ser felizes. É bom, não é?