Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
Estrilite
- Ai que bom! As tuas bolachinhas são do céu! Parecem feitas de nuvem!
- Então, são feitas de algodão!...
Ela deu um risinho tímido com a parvoíce que tinha dito. Ele deixava de se debruçar na janela e vinha ao encontro dela, que lhe dava bolachas como quem dá o mundo, e ele, feliz, pronto para as receber. Lá fora, com o céu cor-de-rosa-pôr-do-sol, grandes dentes de leão subiam às rodinhas pelo ar acima (quem sabe se eram nascidos de xuxus ou de outra coisa qualquer?).
- O que foi?
- É que esta manhã, quando saí de casa, ao nascer do dia, vi o quarto minguante.
- Mas isso não é possível!
- Porquê?
- Porque tu é que és a quarto minguante e tu estás aqui ao meu lado!
- Oh...
Beijou-lhe a testa com um beijo rechonchudinho como que dizendo "come e cala-te, anda lá...".
- Sabes, ontem à noite caiu-me uma estrela na orelha e agora não sai de lá.
- Outra?! Já te tinha caído uma estrela no nariz, agora foi uma na orelha? Será alguma doença?
- Não sei... Só se for estrilite...
Ele levantou-se, puxou-a para junto de si e encheu-lhe a cara de beijinhos - era o remédio para a estrilite.
Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
- Não, é uma estrela.
- Uma estrela? E como é que ela foi parar aí?
- Então, caiu do céu e veio parar aqui.
- Mas as estrelas são grandes...
- Pois são, mas quando caem do céu vêm descendo e descendo e vão ficando mais pequeninas... Esta foi ficando mais pequenina e veio colar-se ao meu nariz.
- Ah...
E olhou com aqueles olhos de "também quero uma estrela no nariz!".
- Anda lá, bebe o teu leitinho com chocolate.
- Já bebeste o teu? Mostra!... Oh, o teu leite está branco! Quem tirou o chocolate do teu leite?
- Ninguém. Fui eu que quis sem chocolate.
- Porquê?
- Não sei.
- Porquê?
- Não sei... Vamos lavar as mãos que estão todas sujas das canetas de feltro?
- Sim, eu sabo. Tem aqui sujo de verde e liranja. Dás-me um abracinho?
- Um abraço? Dou, sim!
A menina da estrela no nariz ficou abananada e feliz. Levantou-se da cadeira e deu-lhe um abraço. A menina pequenina estava tão contente que apertou, com toda a pequena força que tinha, a menina da estrela no nariz contra si e perguntou:
- Somos amigas, sim?
Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Sábado, 3 de Dezembro de 2011
- Diz!
-Sorri!
- Estou a sorrir.
- Não estás nada a sorrir. Sorri!
- Sofrer dói, não dói?
- Dói, mas passa. Tudo passa.
- E os cheiros, os sorrisos, os cigarros mal fumados…?
- Também. Quer dizer, menos os sorrisos. Porque é que não estás a sorrir?...
(…)
- Ai… Ai… Pára de me fazer cócegas! Agora dói-me a barriga de tanto rir!
- Obrigado!
- Obrigado porquê?
- Porque o teu sorriso é a coisa mais bonita do mundo!
Hoje a lua está a crescer. Está assim meio meio. Depois enche-se e fica cheia, até voltar a Quarto Minguante. Até lá vai sorrindo e dando gargalhadas de estrelas (gargalhadas de estrelas é quando ris tanto tanto que até te saem estrelas pela boca!).
Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
Pó de estrelas ou Azul, anil e Carmesim
- E como é isso?
- Então, por exemplo, as estrelas que tu mais vês são feitas de pó de estrelas e de leite. Por isso é que têm aquela cor amarela cremosa.
- Parecem feitas de leite creme…
- Pois é! Nunca tinha pensado nisso! A mim faziam-me lembrar queijo derretido.
- Mas a lua é que é feita de queijo. As estrelas não, não é?
- Exacto! Queres mais? Quando misturas pó de estrelas e água nascem estrelas brilhantes. E as cadentes? Sabes como são feitas as estrelas cadentes?
- Tu sabes?!
- Sim. Pó de estrelas e 7up. Metes o pó dentro da garrafa de 7up e as estrelas cadentes saem de lá disparadas!
- …
- Queres que te conte um segredo?
- Sim!
- Mas prometes guardar segredo?
- Sim, claro que sim!
- Há umas estrelas raras feitas de pó de estrelas e groselha que ficam carmesim e só os apaixonados as podem ver!
- Oh!... Azul, anil e carmesim…
- Diz?
- Azul, anil e carmesim…
- O que tem?
- Lembrei-me de uma história.
- Oh conta! Que história?
- Não sei.
- Não sabes? Então lembras-te de uma história e depois já não sabes?
- Não, não sei. Lembrei-me de uma história que está a nascer na minha cabeça.
- Que giro! E como é que é?
- Não sei… Se calhar vai ter três personagens: Azul, Anil e Carmesim.
- Vais ter personagens que são cores?
- Pois, não sei. Mas são tão fortes e tão bonitas…
- As cores?
- Também… e a sua forma e o seu som… Não sei…
- Tu não sabes nada… Sabes o que é isso? É de pensares demais. Pensa menos e sente mais! Vamos buscar pó de estrelas para brincar?
- Sim! E podemos experimentar com coca-cola?
Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
- Bem, isso é um sonho de ficar de barriga cheia. E não sonhaste com pipocas coloridas salpicadas na cama?
- Não, mas sabes o que é que eu acho? Como há máquinas de fazer pipocas, havia de haver máquinas de fazer tempo. Saía tempo aos bocadinhos de dentro de uma panela.
- Vinte minutinhos agora, meia horita depois...
- Sim! Assim o meu tic tic deixava de estar cá dentro a fazer toc toc estou aqui! sou a saudade! E a memória não recomeçava - o guarda saudades da cabeça.
- Porque é que o leite encolhe no microondas?
- Aha?
- Porque é que quando aqueço o leite no microondas ele encolhe?
- Porque é que estamos sempre a falar de comida?
- São necessidades homeostáticas. Por exemplo, quando não estás como gelatina de morango. É como se te desse beijinhos depois de comeres gomas.
- Ah, está bem.
Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
Cereja mal comida
Era meia-noite e meia e ela ainda comia cerejas.
Lá do alto, viu uma coisificação de mangas de capote que a deixou perturbada: um homem feito de massa com cabeça de carne picada e olhos de cereja mal comida encarrapitados na sua fronte. Tudo bem que já tinha visto homens batata frita - homens batata frita douradinha e estaladiça – mas nessa altura vivia uma dissonância cognitiva que elevava o seu status quo: seriam os psicólogos gente séria? Os psicólogos são uns mentirosos. Sim, sim, eles mentem às pessoas, dizem que vão fazer experiências com elas e depois, pimbas, fazem outras. Não, não, não é esse pimbas. Esse pimbas tem sabor e sabedoria. Eu saibo a caramelo, tu sabes a café. Eu sei a caramelo, tu sabes a café. (Tu sabes e eu sabia?)
Eis então que, deitadinho no seu divã freudiano (e não froidiano), a antropomorfização de macarrão grita cá para cima: E se eu te disse que um elefante e um rato são uma única e mesma pessoa? Da mesma maneira que um pintainho acaba sendo, afinal de contas, uma goma gigante de peluche?
Eram sete e meia da manhã e ela já não comia cerejas.