quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Já gastei o sal das lágrimas.
Já lhes gastei a água, até.
Já matei Orestes por amor a Egisto
e rapei o cabelo à própria Medusa.
Voltei a Argos.
Arrastei a cadeira de palha até ao céu
para não esperar sentada.
E não esperei.
Secou.

(07/12/2013)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

- O que é isso que tens no nariz? É um macaco?
- Não, é uma estrela.
- Uma estrela? E como é que ela foi parar aí?
- Então, caiu do céu e veio parar aqui.
- Mas as estrelas são grandes...
- Pois são, mas quando caem do céu vêm descendo e descendo e vão ficando mais pequeninas... Esta foi ficando mais pequenina e veio colar-se ao meu nariz.
- Ah...
E olhou com aqueles olhos de "também quero uma estrela no nariz!".
- Anda lá, bebe o teu leitinho com chocolate.
- Já bebeste o teu? Mostra!... Oh, o teu leite está branco! Quem tirou o chocolate do teu leite?
- Ninguém. Fui eu que quis sem chocolate.
- Porquê?
- Não sei.
- Porquê?
- Não sei... Vamos lavar as mãos que estão todas sujas das canetas de feltro?
- Sim, eu sabo. Tem aqui sujo de verde e liranja. Dás-me um abracinho?
- Um abraço? Dou, sim!
A menina da estrela no nariz ficou abananada e feliz. Levantou-se da cadeira e deu-lhe um abraço. A menina pequenina estava tão contente que apertou, com toda a pequena força que tinha, a menina da estrela no nariz contra si e perguntou:
- Somos amigas, sim?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Tenho um coração por dentro e um coração por fora. O por fora serve para as pessoas saberem que também há um coração por dentro.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pó de estrelas ou Azul, anil e Carmesim

- As estrelas são feitas de pó de estrelas, que normalmente é amarelo, mas que quando se mistura com diversos líquidos adquire algumas propriedades específicas. Por isso há tantas estrelas e tão diferentes.
- E como é isso?
- Então, por exemplo, as estrelas que tu mais vês são feitas de pó de estrelas e de leite. Por isso é que têm aquela cor amarela cremosa.
- Parecem feitas de leite creme…
- Pois é! Nunca tinha pensado nisso! A mim faziam-me lembrar queijo derretido.
- Mas a lua é que é feita de queijo. As estrelas não, não é?
- Exacto! Queres mais? Quando misturas pó de estrelas e água nascem estrelas brilhantes. E as cadentes? Sabes como são feitas as estrelas cadentes?
- Tu sabes?!
- Sim. Pó de estrelas e 7up. Metes o pó dentro da garrafa de 7up e as estrelas cadentes saem de lá disparadas!
- …
- Queres que te conte um segredo?
- Sim!
- Mas prometes guardar segredo?
- Sim, claro que sim!
- Há umas estrelas raras feitas de pó de estrelas e groselha que ficam carmesim e só os apaixonados as podem ver!
- Oh!... Azul, anil e carmesim…
- Diz?
- Azul, anil e carmesim…
- O que tem?
- Lembrei-me de uma história.
- Oh conta! Que história?
- Não sei.
- Não sabes? Então lembras-te de uma história e depois já não sabes?
- Não, não sei. Lembrei-me de uma história que está a nascer na minha cabeça.
- Que giro! E como é que é?
- Não sei… Se calhar vai ter três personagens: Azul, Anil e Carmesim.
- Vais ter personagens que são cores?
- Pois, não sei. Mas são tão fortes e tão bonitas…
- As cores?
- Também… e a sua forma e o seu som… Não sei…
- Tu não sabes nada… Sabes o que é isso? É de pensares demais. Pensa menos e sente mais! Vamos buscar pó de estrelas para brincar?
- Sim! E podemos experimentar com coca-cola?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

- Hoje tive um sonho cor de algodão doce.
- Bem, isso é um sonho de ficar de barriga cheia. E não sonhaste com pipocas coloridas salpicadas na cama?
- Não, mas sabes o que é que eu acho? Como há máquinas de fazer pipocas, havia de haver máquinas de fazer tempo. Saía tempo aos bocadinhos de dentro de uma panela.
- Vinte minutinhos agora, meia horita depois...
- Sim! Assim o meu tic tic deixava de estar cá dentro a fazer toc toc estou aqui! sou a saudade! E a memória não recomeçava - o guarda saudades da cabeça.
- Porque é que o leite encolhe no microondas?
- Aha?
- Porque é que quando aqueço o leite no microondas ele encolhe?
- Porque é que estamos sempre a falar de comida?
- São necessidades homeostáticas. Por exemplo, quando não estás como gelatina de morango. É como se te desse beijinhos depois de comeres gomas.
- Ah, está bem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cereja mal comida

Era meia-noite e meia e ela ainda comia cerejas.

Lá do alto, viu uma coisificação de mangas de capote que a deixou perturbada: um homem feito de massa com cabeça de carne picada e olhos de cereja mal comida encarrapitados na sua fronte. Tudo bem que já tinha visto homens batata frita - homens batata frita douradinha e estaladiça – mas nessa altura vivia uma dissonância cognitiva que elevava o seu status quo: seriam os psicólogos gente séria? Os psicólogos são uns mentirosos. Sim, sim, eles mentem às pessoas, dizem que vão fazer experiências com elas e depois, pimbas, fazem outras. Não, não, não é esse pimbas. Esse pimbas tem sabor e sabedoria. Eu saibo a caramelo, tu sabes a café. Eu sei a caramelo, tu sabes a café. (Tu sabes e eu sabia?)

Eis então que, deitadinho no seu divã freudiano (e não froidiano), a antropomorfização de macarrão grita cá para cima: E se eu te disse que um elefante e um rato são uma única e mesma pessoa? Da mesma maneira que um pintainho acaba sendo, afinal de contas, uma goma gigante de peluche?

Eram sete e meia da manhã e ela já não comia cerejas.

sábado, 28 de março de 2009

quando eu morrer

vai ser um belo dia
meu amor vais ver
vai ser tão calmo
vai ser lindo de morrer

e à minha volta tudo vai ter luz
essa que é meu desejo ter
e como um truque de uma insólita magia
trazendo o nosso amor de volta à luz do dia
quando eu morrer
meu amor eu fico vivo nos teus gestos e em teu riso
por isso nunca deixes de sorrir
pois para o nosso amor viver é só o que é preciso

Manel Cruz