sábado, 3 de maio de 2008

Como nos romances a sério

O olhar dela voltara a brilhar como antigamente. Voltou a ter aquela estrelinha que tinha antes de partir para um lugar distante, que ela chegou mesmo a amar, onde se perdeu por infímas luzes.
Agora que vivia um dia de cada vez, saboreando o Sol e o Mar em fortes tragos, a sua pele escurecia levemente e tinha um novo cheiro a côco (como o dos biscoitos) que se acentuava nos dias de amuo quando ela se deitava na cama de maçãs.
Ele olhava-a assim, feliz, por entre as árvores, todas as manhãs, enquanto o vento tilintava o espanta-espíritos. Depois sentava-se na soleira da porta (ela rangia como as dos castelos das princesas), puxava do pensativo cigarro e em cada fio de fumo que lançava para dançar no ar via as carícias que lhe fazia com as pontas dos dedos enquanto esperava, sem pressas, que ela adormecesse nos seus braços, tal como haviam sonhado em outras quimeras. Recordou a noite que nenhum conseguia esquecer; repleta de risos, atrasos e bebidas («feérica!» - dizia ela), em que a tinha visto como uma fada envolvida em tanta música.
Era manhã de bons ventos, ela apareceu entre as cortinas de linho branco, quase sem se notar, com duas canecas coloridas nas mãos; trazendo, por carolice, a candura e a pureza no seu vestido fresco e um sorriso de «Bom dia!» nos lábios de ouro.
Quando a viu chegar, levantou-se, apagou rapidamente o cigarro e procurou os sapatos vermelho brilhante, mas só a encontrou descalça com ar de quem pergunta «Porque é que estás a olhar assim para mim?»
-Já estavas aí há muito tempo?
-Não, estava aqui a ver-te fumar, tinha curiosidade... Café?
Estendeu desastradamente a mão pequena ornamentada pelas pulseiras da sorte tentando não entornar nada.
-Sim, obrigado. Não estás a beber café, ou estás?
-Não - sorriu- nesta caneca só pára leitinho.
-O que foi?
-Quero olhar para nós.
-Como?
-Nos teus olhos.
-Porquê?
-Porque somos felizes.
Abraçou-a como se quisesse guardá-la nos seus braços, bem juntinha ao coração e deu-lhe um beijo na testa, daqueles que só ele sabe dar. Um ar, uma brisa, quem sabe, com todas as cores, intensidades e sentidos corria entre eles e, rebelde, brincava com os cabelos dela, como nos romances a sério.
-Sentiste?
Era o Amor que passava por eles, sem saber o que isso era.

3 comentários:

Benjamim Natura disse...

Como nos romances a sério, também houve o momento em que o cigarro lhe queimou os dedos, e ele o engoliu, a esconder alguma coisa, ou a fazer uma nova espécie de espanta-espíritos.
Só que houve um espírito que achou que o espanta-espíritos o chamava, como num concerto, e não é que veio.
Para o novo espírito caber, bombeou o cigarro para o espaço e sentiu um novo ardor, que não pára desde então.

Benjamim Natura disse...

citando Jacob Brockowitz, "as palavras são meros símbolos, criados pela faculdade humana que une a arte à ciência e que, em simultâneo, as separa: a imaginação. Na ciência busca-se provar uma e só uma resposta através dum uso conciso da palavra; na arte, e eis a sua única diferença, mantém-se o leitor no prazer da incerteza, da subjectivização e da auto-interpretação". Uma palavra vale tanto como uma imagem na cabeça, projectada a partir duma linguagem humana, feita de palavras (à excepção da linguagem gestual e corporal e afectiva, aquela de que eu sou feito, em primeiro lugar, antes das palavras).
Assim, não me acredito que sejas feita de palavras, porque não és um símbolo, és bem real, como uma nota musical e é bom sentir-te e um dia, ou não, há-de vir o tempo em que a humanidade não necessitará da merda das palavras para comunicar.
e digo-te já, o que é giro nas palavras é que elas são falsas, como diz o mesmo autor, "são todas metáforas", já que cada um de nós cria a sua imagem, a sua sensação, desenvolve uma ideia na imaginação, diferente de todos os outros.

A palavra amo-te, por exemplo: se calhar para ti é uma palavra normal de se dizer, com um sentido bonito, se calhar é um bocado pirosa para alguns, mas para mim é algo muito forte, extremamente intenso e cansativo, só de pensar na sua força.

Amo-te e adorava comunicar isso sem palavras oh tu que és feita de matéria amada

Anónimo disse...

Ti:ta uma valente cagada!!!!!!!
Edgar:fuck you!!!!!!!!!!!!
Cabeças:a copiar tb eu!!!!!!!!!